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O segundo encontro presencial do curso Escola e Cidade, polo Região Metropolitana de Belo Horizonte, aconteceu dia 31 de maio na Faculdade de Educação da UFMG (FaE-UFMG). Nesse encontro os participantes foram estimulados a refletir e problematizar a educação integral a partir de discussões coletivas, vídeos, dinâmicas e uma palestra do arquiteto Samy Lansky.

Em sala de aula foi projetado um vídeo com uma roda de conversa entre os professores Juarez Melgaço, Paulo Nogueira e Levindo Diniz, 100_0462todos da FaE- UFMG,  onde o tema central discutido era a educação integral. Nessa roda de conversa os professores destacam que a educação integral busca trabalhar com o foco voltado para os interesses dos alunos. O sujeito da educação é visto como alguém ativo, dotado de ampla subjetividade, com sua identidade vinculada ao território onde habita. Ao enxergá-lo dessa maneira a escola buscará novas práticas pedagógicas, onde o lúdico, a arte, a expressão criativa do aluno, o jogo, o diálogo, a exploração dos territórios extramuros ocuparão lugar privilegiado no processo de ensino aprendizagem. Dessa forma, a educação integral busca ampliar a experiência escolar do educando construindo uma prática que cada vez mais procure reduzir as dicotomias escola-vida, aluno-cidadão, professor-aluno produzidas pela educação formal, baseada em hierarquias e na rigidez de tempos e espaços. A pergunta colocada pelos professores, “Pra que mundo devemos viver para educar?” resume muito bem essa discussão.

Após o vídeo os participantes realizaram uma discussão buscando aprofundar o tema, além de trazer questões vivenciadas em sua realidade local. Interessante destacar que foi muito comentado a realidade dicotômica vivida por muitos alunos que estudam num turno e participam de projeto em outro. No turno escolar ele é considerado aluno, com um iminente caráter passivo, ao passo que no projeto ele é considerado sujeito, participante ativo do processo de ensino aprendizagem. Essa compartimentação do individuo, tão comum na sociedade capitalista é uma herança da revolução industrial e sua ideologia da linha de montagem, onde a alienação do sujeito surge a partir da fragmentação do seu fazer. Essa ideologia fragmentária disseminou-se por vários setores da sociedade contemporânea capitalista e a escola não ficou imune. Fragmenta-se para alienar, aliena-se para dominar. Durante a discussão uma professora ao explicar sua realidade local, argumentou: “eu consigo produzir bem com os alunos da tarde”. Percebe-se pela frase que além da fragmentação do sujeito o discurso produtivista também penetrou no ambiente escolar de tal forma que não mais se percebe que a todo momento ele é reproduzido por quem deveria atacá-lo. Portanto, o mal que atinge o ambiente escolar afeta tanto educandos quanto educadores e mudanças se fazem necessárias. Acessar a pessoa além do aluno, eis uma missão fundamental da educação integral. Isso como pré-requisito básico para uma educação que não promova a barbárie, como muito bem colocado por Theodor Adorno.

Após a discussão os participantes realizaram uma dinâmica proposta pelo formador, onde se buscou despertar as expressões educativas e não educativas dos territórios onde cada um atua. Essa atividade pode ser vista como uma tentativa de cartografar as potencialidades existentes no território educativo de cada participante. Não somente território físico, mas também o subjetivo. Entre as expressões educativas foram citadas: gente (em oposição ao aluno), a comunidade, a lagoa, o espaço físico da escola, a precariedade, o contato com a tecnologia.  Como expressões não educativas foram citadas: a ideia formal de aluno, diálogo curto no espaço escolar, estrutura física da escola, a condição docente, o pouco compromisso dos pais, valorização excessiva do espaço físico da escola.

Essa dinâmica foi uma prévia de uma atividade de cartografia do ambiente escolar e tem por objetivo despertar nos participantes as potencialidades pedagógicas existentes no seu território. Como eixos norteadores foram propostas perguntas como: O que há em seu entorno que é educativo? O que há de educativo nos percursos feitos por alunos e funcionários da escola? O que há de educativo no entorno da escola? Na comunidade e na cidade? Que relações são estabelecidas entre os sujeitos que ocupam aquele espaço?

A proposta da atividade é que os participantes ao se voltarem para o território e o descreverem, componham uma narrativa dos usos sociais que os sujeitos destinam a cada espaço em sua ocupação. A ideia é que eles componham um registro cartográfico dentro das possibilidades existentes, podendo ser utilizado um desenho, um mapa ou mesmo fotografias tiradas pelos educadores. A atividade deverá ser entregue dia 28 de junho.

A segunda parte do encontro foi realizada no auditório Neidson Rodrigues também na Faculdade de educação da UFMG e contou com uma palestra proferida pelo arquiteto Samy Lansky. A palestra foi baseada na sua tese de doutorado, onde ele estudou a dimensão formativa da circulação de crianças pela cidade. Sua pesquisa foi realizada na barragem Santa Lúcia em Belo Horizonte, local em que a favela e o bairro classe média alta coexistem num espaço próximo.

Segundo o pesquisador a circulação de crianças pela cidade é fruto da compartimentação da vida pública e privada promovida pelo desenvolvimento da sociedade capitalista industrial. Nessa sociedade a vida pública seria aquela relacionada ao homem adulto ao passo que a vida privada ficaria reservada à mulher e a criança. Essa separação do universo adulto do infantil provocou o surgimento de uma série de espaços e objetos produzidos especificamente para as crianças (escolas, creches, parques, museus, etc.). Porém a tentativa de 100_0520normatização dos espaços destinados às crianças não conseguiu suplantar o fascínio exercido pela rua e sua multiplicidade de estímulos e possiblidades de uso. Pelo contrário parece aguçá-lo ainda mais. Segundo Lansky, a movimentação e ocupação da cidade são parte fundamental do processo de exercício pleno da cidadania e cada vez mais as crianças vem sendo privadas deste direito por diversas razões, tais como o crescimento do número de carros, a violência urbana, o controle excessivo dos pais entre outros. Assim a rua assume o papel de lugar do desvio, inseguro, inadaptado as necessidades das crianças. Porém na visão de Lansky essa concepção mais europeia da rua não é compartilhada por muitos povos sul americanos.

Em sua pesquisa o arquiteto conviveu por vários meses com os frequentadores do entorno da lagoa da barragem santa Lúcia e foi buscando compreender as formas de ocupação e socialização desse espaço público pelas crianças da favela e do bairro classe média. Ele destacou o clube de trocas de figurinhas promovido pela banca de revista onde crianças de classes sociais diferentes interagem-se ludicamente.

Na percepção do pesquisador as crianças da favela normalmente tem mobilidade mais ampla pelo espaço urbano que as crianças do bairro classe média. As crianças da favela andam por varias ruas do bairro classe média, porém as do bairro classe média não se aventuram pelo território da favela por razões óbvias. Assim a segregação espacial atinge tanto pobres quanto ricos.

Ao final da palestra ocorreu um bate papo entre os presentes e o arquiteto. Destaco uma fala de um participante que abordou a questão da segregação espacial existente dentro da região metropolitana e Belo Horizonte. Lansky argumentou que ela existe em larga escala também, uma vez que vários municípios que compõem a região metropolitana recebem baixíssimos investimentos em várias áreas, sendo que Belo Horizonte acaba polarizando para si a maior parte dos recursos. Assim a desigualdade existente em Belo Horizonte se reproduz também pela região metropolitana, perpetuando a segregação socioespacial, dificultando o desenvolvimento das pessoas.

Confira abaixo mais registros:

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