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Por Fernando Costa

“Há uma pedagogicidade indiscutível na materialidade do espaço.”  Paulo Freire

A dimensão espacial é um dos fatores mais importantes quando pensamos numa educação que almeja a integralidade dos sujeitos envolvidos. A educação formal centraliza seu processo de formação no espaço escolar, construindo uma dicotomia instituição-realidade que cada vez mais tem se mostrado frágil e insustentável frente ao contexto contemporâneo.

Se quiser saber mais sobre os espaços da educação assista ao vídeo do projeto Rodas de conversas produzido pelo Teia UFMG:  https://youtu.be/ulzUaG5Dz6E

Num cenário em que o fluxo de informações, a presença tecnológica e a massificação intensificam-se, a hegemonia da escola como lugar central do conhecimento vem sendo questionada. Por outro lado a consolidação da democracia no Brasil e o processo de globalização das economias mundiais vêm criando uma demanda por um lado de cidadãos com maior capacidade de leitura crítica da realidade e participação nas questões coletivas e por outro de trabalhadores com maior qualificação técnica. Portanto o cenário colocado pela realidade atual vem exigindo uma mudança de paradigma nas formas de atuação e também no papel exercido pela escola.

Se quiser saber mais sobre a crise da educação formal no contexto contemporâneo assista aos vídeos do pesquisador espanhol Manuel Castells:

http://teiaufmg.com.br/manuel-castells-explica-a-obsolescencia-da-educacao-contemporanea-2/

http://teiaufmg.com.br/manuel-castells-escola-e-internet-o-mundo-da-aprendizagem-dos-jovens/

Ao pensarmos numa educação que se diz integral é inevitável a ampliação dos espaços onde ela se dará. Separar o espaço escolar da realidade que a rodeia é uma contradição importante de ser superada. A escola, assim como o espaço que a rodeia, é socioculturalmente construída. E ela precisa reintegrar-se a essa realidade circundante se realmente quiser promover a integralidade dos sujeitos. Dessa forma, romper os muros concretos e subjetivos da escola aparece como urgência numa prática pedagógica que almeja a superação do modelo formal de educação.

É nesse contexto que o espaço extramuros do território emerge com toda sua potencialidade e a investigação da própria realidade a qual os envolvidos estão enraizados e imersos socioculturalmente, abre muitas possibilidades de desenvolvimento educacional.

Se você quiser saber mais sobre o uso do território na educação integral acesse o Cadernos do projeto Mais educaçãohttp://educacaointegral.org.br/wp-content/uploads/2014/04/territorioseducativos.pdf

Desde a década de 60, Paulo Freire já propunha uma pedagogia dialógica que superasse dicotomias clássicas como professor-aluno, escola-realidade, geradaspaulo_freire angicos a partir de um pensamento formal. O Diálogo para esse educador é enxergado como prática libertária, onde os envolvidos se colocam como seres em processo de construção, desierarquizados, passíveis de transformaram-se numa relação de troca e a partir daí agentes transformadores do mundo que vivem. Nas palavras de Paulo Freire “o diálogo é este encontro dos homens, mediatizados pelo mundo, para pronunciá-lo, não se esgotando, portanto, na relação eu-tu”. Nessa educação problematizadora o sujeito é colocado numa postura ativa frente à realidade, sendo estimulado a desenvolver sua consciência, tanto no que diz respeito a sua dimensão individual quanto coletiva. Ao passo que a educação bancária cultiva a repetição, a passividade e a aceitação, a problematizadora estimula os sujeitos a agirem sobre o mundo, construindo novas realidades.

Se quiser conhecer a obra de Paulo Freire clique aqui: http://acervo.paulofreire.org/xmlui

Milton SantosO território surge como uma importante categoria de investigação num processo de educação integral, pois é nele que os sujeitos vivem e constroem sua subjetividade a partir das relações que aí tecem. Para o geógrafo brasileiro Milton Santos ele “não é apenas o conjunto dos sistemas naturais e de sistemas de coisas superpostas. O território tem que ser entendido como o território usado, não o território em si. O território usado é o chão mais a identidade. A identidade é o sentimento de pertencer àquilo que nos pertence. O território é o fundamento do trabalho, o lugar da residência, das trocas materiais e espirituais e do exercício da vida.”

Você pode saber mais sobre o livro de Milton Santos citado aqui: http://tinyurl.com/m6jzc4t

Percebe-se pela fala de Santos que é na dimensão territorial que as raízes dos sujeitos se nutrirão, alimentando assim sua identidade, seu sentimento de pertença além de criar sentindo em seu estar no mundo. E a partir das relações de poder estabelecida entre os diversos atores que atuam no território ele continuamente será modificado. A subjetividade aparece como um importante elemento dentro dessa forma de pensar o território, uma vez que cada indivíduo se relacionará com ele de uma maneira bem distinta, baseada em suas experiências. Assim, ao trabalharmos o território como um símbolo, onde cada um desenvolverá percepções muito particulares e a partir de uma prática dialógica cria-se a possibilidade de expansão da percepção de todos os envolvidos no processo de ensino aprendizagem.

O geográfo Claude Raffestin propõe que “o território será um campo de forças, uma teia ou rede de relações sociais que, a par de sua complexidade interna,Claude Raffestin
define, ao mesmo tempo, um limite, uma alteridade: a diferença entre “nós” (o grupo, os membros da coletividade ou “comunidade”, os insiders) e os “outros” (os de fora, os estranhos, os outsiders). Assim pensado, os territórios são antes relações sociais projetadas no espaço, um campo de força onde os agentes nele atuam. A cidade surge assim como um espaço privilegiado para a produção do conhecimento, estando suas ruas, prédios, histórias, parques e monumentos repletos de informações disponíveis a serem lidos, problematizados, ressignificados. Se quiser aprofundar a leitura sobre Claude Raffestin clique aqui:http://tinyurl.com/n5wxfx3

Para o professor espanhol Jaume Bonafé “há milhares de situações construindo constantemente significados. A cidade junto aos meios de comunicação são elementos que estão nos fazendo como sujeitos, nos moldando. Portanto, são currículo e devem ser estudados como tal.” Segundo ele, para colocar em prática essa visão, é preciso admitir que há um currículo fora da escola, que pode ser construído a partir das diferentes experiências e práticas culturais, e levando em conta as inúmeras formas de entender e vivenciar o mundo. “Se nos ensinassem a ler a rua de outra maneira, muito provavelmente, seríamos cidadãos diferentes, saberíamos valorizar as praças e as cidades a partir de um outro olhar.”

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Porém, Jaume argumenta que somente sair para o entorno, como forma de oxigenar o cotidiano escolar não é o caminho para uma verdadeira transformação. A seu ver é preciso ver a rua como um currículo e investigá-lo profundamente. Buscar “entender o que significam as grandes avenidas, os centros comerciais e as praças; qual o significado para as crianças ou para as pessoas mais velhas, para os homens ou mulheres, para negros e para os brancos. Ver quais significados se constrói na cidade e nos dar conta de que em uma cidade há muitas cidades, interpretadas segundo o mundo de cada um. Há milhares de situações que estão construindo constantemente significado. A cidade junto aos meios de comunicação são elementos que estão nos fazendo como sujeitos, nos moldando. Portanto, é currículo e devem ser estudados como tal.”

Leia na íntegra a entrevista de Jaume Bonafé: http://portal.aprendiz.uol.com.br/2014/11/12/cidade-como-curriculo-pesquisador-espanhol-desafia-escola-olhar-rua/

Buscar possibilidades educativas no território habitado pelos educandos é uma forma de trazer a vida sociocultural para o interior do processo de ensino aprendizagem. Dessa forma torna-se possível construir uma educação embasada na pluralidade, fortalecendo assim o processo democrático do país. Inserir os diversos saberes gerados na vida social do território onde a escola está presente é uma maneira de reconhecer e fortalecer uma educação centrada em valores mais humanistas em oposição ao pragmatismo e mercantilização aventados pelo sistema capitalista hegemônico.

Para concluir, podemos elencar algumas possibilidades que o uso do território pode trazer ao processo educacional:

– É uma excelente oportunidade dos envolvidos conhecer e reconhecer o espaço onde habitam;

– Fortalece a construção de sentido da aprendizagem ao trazer o espaço cotidiano para as aulas;

– Gera a oportunidade dos envolvidos desenvolver sua cidadania mais profundamente, uma vez que estarão vivenciando de perto a diversidade existente no espaço onde habitam, além da possibilidade de propor soluções para os problemas existentes;

– Valorização do conhecimento construído dentro da própria realidade a qual os envolvidos vivem, ou seja, o conhecimento popular;

– Coloca a experiência e não o saber livresco como aspecto central do processo de ensino aprendizagem;

– Cria a possibilidade de transformação da realidade sociocultural do território habitado;

– Fortalecimento do processo democrático do país.

Experiências de uso do território na educação integral

Documentário Heliópolis – Bairro educador: Heliópolis é a favela mais populosa de São Paulo e uma das maiores do mundo: mais de 120 mil pessoas habitam o emaranhado de suas vielas. A história dessa comunidade está repleta de episódios de luta, conflitos e esforços para escapar da exclusão social.

Surgida no início dos anos 1970, Heliópolis vem passando por diversas etapas de amadurecimento, de mudanças. Primeiro, viveu sob a intimidação agressiva dos grileiros e as constantes lutas pela posse da terra. Em seguida, testemunhou o crescimento alarmante da violência, as guerras de traficantes e o assassinato de seus jovens. Os avanços da urbanização, porém, deram à favela o status de bairro e, hoje, a educação começa a transformar a realidade de seus moradores.
Realização: Prefeitura da Cidade de São Paulo (Secretaria de Educação) / Fundação Padre Anchieta / Diretor: Andre Ferezini / Produtora: Maria Bonita Filmes https://vimeo.com/29900589

Bairro educador – DescriçãoHeliópolis é um bairro da Zona Sul da capital paulista que historicamente, desde a sua fundação, tem uma população muito ativa e organizada, que reivindicava melhores serviços públicos, como moradia, saúde e educação. Nos anos de 1990, a força mobilizadora dos moradores, em diálogo com uma nova gestão escolar na EMEF Campos Salles, uma das principais escolas da região, foi trazendo ao bairro um novo olhar sobre a forma de se pensar e fazer educação. http://educacaointegral.org.br/experiencias/comunidade-se-transforma-em-bairro-educador/

Territórios educativos na cidade – Sem muros, uma escola se abre para a comunidade. Em simbiose com os demais equipamentos da região, com a rede de proteção à infância, com coletivos artísticos e organizações sociais, os habitantes desse local se articulam para garantir que a rua seja um espaço de aprendizado para todas as idades. A ideia de que só “os especialistas” detêm o conhecimento cai por terra e as pessoas que ali vivem adicionam suas experiências e saberes na construção de um projeto de desenvolvimento local que começa, mas não termina, no campo da educação. Para além do “Se essa rua fosse minha”, uma proposta: E se esse bairro fosse de todos? http://portal.aprendiz.uol.com.br/2015/04/06/territorios-educativos-como-aprender-na-cidade/

Mapeamentos de territórios – “A cartografia vem no sentido de observar a realidade, ou seja, não só se deslocar, mas observar as interações mantidas, as relações de poder, interpessoais, geracionais, a forma como os espaços são utilizados, quais deles são negados”. É assim que o professor Juarez Melgaço Valadares, docente da Faculdade de Educação (FaE) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), define a atividade de cartografar, ou mapear espaços. http://teiaufmg.com.br/juarez-melgaco-esforcos-para-mapear-territorios-apoiam-a-criacao-de-arranjos-de-educacao-integral/

Escola e espaço urbano Porto Alegre – Em 1999, professores da rede municipal da capital gaúcha (RS) começaram a adotar em suas aulas o Atlas Ambiental de Porto Alegre, para assim iniciar junto às turmas o trabalho de educação com foco no meio ambiente. Diferente de outras metodologias que envolviam a questão, o material trazia a possibilidade de se pensar o conteúdo junto à comunidade. Os espaços urbanos podiam ser avaliados a partir de suas características constituintes – naturais, sociais, gestão – e também serem indutores de análises geográficas, por exemplo, aproximando as aprendizagens curriculares do território. http://portal.aprendiz.uol.com.br/2014/06/10/laboratorio-em-porto-alegre-estuda-ambiente-urbano-e-aproxima-escola-da-comunidade/

Cidade educadora – O número 1.012 da Rua da Consolação não abriga loja de lustres ou concessionária de veículos. Desde o dia 22 de março de 1953, funciona ali a Escola Municipal de Ensino Infantil Gabriel Prestes, que não passou incólume pelas transformações da cidade ao seu redor e, após mais de seis décadas de existência, tornou-se um espaço de aprendizagem cuja finalidade é ampliar os diálogos no território, realizando percursos com as crianças e analisando seus olhares sobre a cidade educadora. http://portal.aprendiz.uol.com.br/2015/03/13/escola-em-sao-paulo-quer-devolver-a-cidade-para-as-criancas/

Curta “A rua é pública” – Eles tinham a bola, o time e nenhum lugar pra jogar. Sem campo, quadra ou rua, algumas crianças do assentamento Eliana Silva não acham que disputa de pênaltis seja uma grande aventura, mas isso está prestes a mudar.
ficção, 9 min, 2013, full HD, MG, Brasil
Roteiro e direção: Anderson Lima – Produção: Anderson Lima & Cacau Amora
Trilha Sonora: Eduardo Marson & Larissa Baq https://www.youtube.com/watch?v=TJw55sa7wWM

A experiência da Praia da Estação - A Praia da Estação surgiu em 2010 como uma reação a um decreto da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte que proibia a realização de eventos de qualquer natureza na Praça da Estação.
É um movimento horizontal, sem lideranças, auto-organizado, sem porta-voz. É constituída por cada um dos banhistas que se juntam a ela. Nela cabem de outros movimentos políticos a blocos de carnaval. Lá encontram-se guarda-sol, cadeiras de praia, caixas de isopor e até farofa. O banho é garantido pelas fontes da praça e por um caminhão pipa contratado com a grana de uma vaquinha que rola na hora, entre os próprios banhistas. https://www.youtube.com/watch?v=5354OiTR07E

Artur Barrio – Em 1970 durante o evento “Do corpo á terra” o artista Artur Barrio lançou várias trouxas ensanguentadas, contendo ossos e vísceras animais e outros resíduos como papel higiênico, nas margens do ribeirão Arrudas em Belo Horizonte. A ação causou grande rebuliço pois a principio todos acharam se tratar de corpos humanos  desovados ali. Ao usar o espaço da cidade como parte viva da obra, o artista desloca e amplia o sentido do que é arte além de questionar a repressiva realidade social do país no auge da ditadura militar:

http://arturbarrio-trabalhos.blogspot.com.br/2008/10/situao-tt-1_22.html

https://cartografiasentimental.wordpress.com/2011/01/18/o-significado-politico-nas-trouxas-ensanguentadas-de-barrio/